Se meu fusca falasse

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Na minha adolescência em Copacabana, tão logo completei 18 anos, meu grande objetivo era comprar meu primeiro carro, mais precisamente um “Fusca”, que era o sonho de consumo de todos os jovens da minha idade. Na época, o grande Jorge Ben – que ainda não era Benjor – já havia proclamado a alegria de morar num pais tropical, de ter um fusca e um violão e uma “nega” chamada Teresa. Eu era Fluminense, tinha uma namorada, o violão e me faltava apenas o carro para atingir a felicidade plena, segundo os meus frágeis conceitos da época. Foi com meu primeiro emprego, na Federal da Seguros – empresa estatal já extinta – que consegui comprar o meu primeiro automóvel. Um Fusquinha 67 – estávamos em 1972 – vermelho escuro, em razoável estado de conservação,  embora o vendedor tenha garantindo tratar-se de uma jóia da indústria automobilística. Saí da loja orgulhoso e feliz, eufórico mesmo. Afinal, era a minha primeira conquista material de valor, adquirida com meus próprios recursos, fruto do meu trabalho. O carrinho não era uma Brastemp, mas estava lá, comprado em prestações, a perder de vista,  que consumiam um terço do meu salário. Com meu Fusca conquistei não apenas a minha independência, mas o próprio Rio de Janeiro. Podia ir a Teresópolis visitar a minha irmã Amália e meu cunhado Humberto nos fins de semana; tinha autonomia para ir ao Motel Mayflower com a namorada; assistir à “corrida de submarino”, no Arpoador;  ir à Barra da Tijuca, ao Recreio dos Bandeirantes ou à região dos Lagos – Búzios, Cabo Frio e Angra dos Reis, que eram os locais da moda. O “fusquinha” me acompanhou por quase três anos e foi testemunha de muitas emoções provocadas pelo ímpeto juvenil em transgredir regras e pela rebeldia natural de uma geração libertária movida pela revolução cultural dos  Beatles e marcada pela repressão  e  pelo cerceamento das liberdades individuais. É verdade que deixou-me  na mão algumas vezes, mas o custo-benefício foi largamente favorável pelos inestimáveis serviços que me prestou ao longo de nossa convivência cúmplice e  de confiança mútua. Certa vez, vinha de Teresópolis,  após participar de um festival de música, em companhia de minha  namorada.  Eram cerca de 2h da manhã quando, ao atravessar a  Baixada Fluminense, região conhecida como uma das mais violentas e perigosas do País, o “carrinho” apagou geral. O motor não dava partida, as luzes não acendiam e ficamos, eu e ela, no meio da estrada, naquela escuridão, com muito medo do que poderia nos acontecer. Quando imaginávamos que tudo estava perdido e que iríamos pernoitar ali, eis que vem um caminhão e dele desce um  sujeito alto, forte, barba por fazer, com cara de poucos amigos e uma chave de roda na mão. Pensei na hora: “estamos fritos”  O homem se aproximou, perguntou o que tinha acontecido,  e , de posse de um alicate que trazia em sua caixa de ferramentas apertou a conexão da bateria e o carro funcionou normalmente. E foi embora me desejando boa viagem, sem aceitar nem uma gorjeta ( que , na realidade, eu nem tinha para dar). Foi a partir dali  que passei a admirar   todos os caminhoneiros, anjos da estrada,  que fazem da solidariedade humana um código de ética no exercício de sua profissão.

  • Capítulo do livro Cesário Alvim 27 – Histórias do Filho de um Exilado, que será lançado, brevemente, em segunda edição, pela Editora Universitária da UFPB.

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